domingo, 29 de novembro de 2009

Évora - 17/10


Chegamos em Évora já de tardinha. Eram 17 horas. A primeira impressão da cidade, a que fica, é a de que estávamos entrando em Ouro Preto. Uma Ouro Preto mais alegre, mais iluminada, mas com o mesmo movimento de gente indo e vindo, com os sobrados beirando as ruas, as lojinhas de uma porta só, vendendo lembrancinhas da cidade e os bares lotados de mochileiros. Ficamos confusos e desorientados: onde encontraríamos um Ibis para ficar? É claro que no meio da muvuca seria impossível. Melhor e até mais divertido seria buscar uma pousada num sobrado antigo, bem ao estilo da cidade. E aí foi bem mais fácil.
Estacionamos próximo às duas primeiras grandes atrações da cidade: as ruínas de um provável templo romano do século 2ºou 3º d.C. dedicado à deusa Diana e a Catedral de Évora, uma construção iniciada em 1186 e concluída em 1250. De lá, descemos a rua Cinco de Outubro e, na esquina da Rua de Diogo Cão, encontramos a nossa morada: Residencial Diana.

Como idealizamos na nossa caminhada, a pousada estava montada num sobrado muito simpático e antigo. Tudo bem, nem tão antigo assim quanto imaginávamos, mas do início do século passado, de 1914. Os quartos que conseguimos ficavam no andar da rua, ao lado da sala de televisão, mas eram muito acolhedores e nos faziam sentir hospedados em uma casa de família. E não tivemos nenhum problema com o barulho da rua nem com o som da televisão. Primeiro, porque às 11 horas da noite, mais ou menos, a rua já estava deserta. As pessoas estavam recolhidas aos seus aposentos ou, então, em outra área da cidade, dedicada às casas noturnas. Depois, não fomos importunados por nenhum plim-plim, porque ninguém vai a Évora para ficar sentado num sofá assistindo televisão, né? Venhamos e convenhamos, seria o maior programão de bobo. Os dois quartos tinham ainda outra vantagem: tinham casa de banho privativa. Isso foi muito bom!

Acomodamos as malas nos quartos e ainda saímos para dar uma volta na cidade, antes do jantar. Paramos primeiro nas ruínas do Templo de Diana, no Largo do Conde de Vila Flor. Foi impossível não nos lembrarmos da nossa própria Diana, uma whippet completamente desorientada. Sua brincadeira predileta era correr atrás do seu próprio rabo. Era tão querida, que os meninos inventaram até um refrão para a danadinha: Diana Rainha Daka, seu dilema é hiputinaka. Mas isso foi só uma divagação, até um pouco grosseira, pois as duas dianas nunca deveriam ser comparadas. Se bem que, não fui a primeira a cometer uma heresia dessa ordem. As ruínas do Templo de Diana, antes de serem resgatadas, por volta de 1870, foi usada como arsenal, teatro e matadouro. Isso mesmo, matadouro, sabe-se lá de quê.

Bem em frente ao Templo de Diana, vimos ainda o Convento dos Lóios, um mosteiro do século 15, transformado numa luxuosa pousada estatal. Vimos só por fora e parece muita bonita, mas os hospedes, pasmem, dormem em celas e jantam nos claustros. Achei muito estranho. No dia seguinte concluímos a visita, para conhecer a Igreja dos Lóios e as salas de exposição do Palácio. Depois volto aos Lóios, pois antes dessa visita, demos uma volta no Largo e voltamos a pousada para tomar um banho e sair outra vez para jantar. Esse jantar tem uma história.

Já eram mais de oito horas e estávamos realmente famintos. Descemos a Rua Cinco de Outubro para encontrar um restaurante que nos atraísse. Vimos dois bem simpáticos, mas já estavam lotados. Próximo deles, encontramos outro totalmente vazio. Não desconfiamos de nada e entramos animados para fazer um pedido bem especial. Tudo correu muito bem, fora o pedido do meu caçula, que tinha um nome estranho e o prato era ainda mais estranho.
Infelizmente, ou felizmente, porque certos fatos merecem mesmo ser esquecidos, hoje não consigo mais me lembrar o nome das coisas esquisitas que ele comeu. Seja o que for, não desceu bem e, a partir desse dia, o pobrezito penou com uma dor no estômago danada e ficou a base de água prata. Aprendemos a lição: restaurante vazio não é sorte, é um sinal de alerta. Não arrisquem, porque, com toda a certeza, o diabo é ruim mesmo. Fujam dos restaurantes vazios, onde for que estiverem. Prefiram sempre aqueles lotados, com gente saindo pelo ladrão, pois essa é a prova de que a cozinha ali é de boa qualidade.

Portalegre - 17/10

O tempo vai passando e as lembranças vão ficando um pouco embaçadas. Aquilo que já não consigo mais ver com muita clareza, tendo a querer preencher com invenções que ajudam a dar sentido às histórias que ainda permanecem na memória. Mas vou resistir. Vou deixar pra trás o que não voltar inteiro nas minhas lembranças. Uma coisa é certa: deixamos Castelo Branco um pouco antes da hora do almoço, com planos de fazer uma boa refeição em Portalegre. Tínhamos também outras pretensões, como as de conhecer o Museu da Cortiça e o Museu de Tapeçarias, duas atrações tipo imperdíveis da cidade. Mas estávamos próximos da fronteira com a Espanha e aí os costumes são outros e prevalecem sobre nossas necessidades.


É claro que chegamos a Portalegre um pouco depois da hora do almoço. Para ser mais exata, chegamos na hora da sesta e os dois museus estavam fechados. É claro também que não encontramos nenhum restaurante para sentar e saborear a cidade. Tivemos de nos contentar com uma lanchonete e a pouca conversa da mocinha que nos atendeu. E ela, por sua vez, mesmo falando pouco, não perdeu a oportunidade de se queixar da falta de incentivos e de políticas públicas para a região. A produção de rolhas, por exemplo, já foi sim uma atividade importante na cidade mas, desde que inventaram as rolhas de plástico, a produção caiu sem perspectiva de recuperar.


A Fábrica Corticeira Robinson entrou para a história da cidade e ainda funciona, usando algumas máquinas da época da sua fundação, alguma coisa em torno de 1835. Hoje, George Robinson, o fundador da Corticeira, deve estar se debatendo no túmulo por conta dessas rolhas de plástico. Ele no seu túmulo e, daqui, todos nós admiradores de um bom vinho. Ainda assim, ao longo da estrada e das redondezas de Portalegre ainda vimos muitos sobreiros, a árvore da qual se tira a cortiça, se multiplicando nos campos.


Depois do lanche, os rapazes ainda tentaram descobrir alguma coisa para vermos em Portalegre, mas foi uma busca inútil. Não culpo os costumes da região pela nossa falta de alternativa. Concordo que é um hábito saudável. Descansar um pouco depois do almoço é o meu sonho de consumo. Por isso atribuo a nossa frustração mais à nossa própria pressa. Se tivéssemos um pouco mais de tempo poderíamos ter esperado alguns minutos e visitado o Museu da Tapeçaria de Portalegre. Não sabia, mas existe um ponto chamado Portalegre que foi inventado ali, por Manuel do Carmo Peixeiro, que dizem ser muito bonito. O ponto, não Manuel, claro, que podia ser bonito também, mas que não tive oportunidade de conhece-lo nem em foto nem em outro tipo de registro, como um desenho. Além da coleção de tapeçarias, poderíamos também ter reforçado o lanche na cafetaria do Museu, que além do café, possui doces típicos da região. Mas as nossas horas estavam contadas em minutos. Enfim, viagem é assim mesmo. Como já disse, sempre deixamos coisas pra trás, na esperança de voltar um dia.

Sem ter um roteiro em mãos, saímos andando pela cidade. Tivemos a companhia dos gatos, que não precisam da sesta, pois dormem quando querem e em qualquer lugar. E também dos pombos, que habitam a praça em frente à Sé. Isso sim. Vimos a Sé, a catedral de Portalegre. Mas não entramos, porque estava fechada também. Construída em 1556, a sua fachada tem elementos do barroco do século XVIII. O seu interior, conforme nos informou o nosso guia de bolso, possui pinturas de artistas portugueses anônimos e a sacristia painéis de azulejos azuis e brancos, dos primeiros anos do séculos XVII. Devem ser maravilhosos! Teremos de voltar a Portalegre, sem dúvida.


Seguem os registros da Sé:


Os pombos que vagamundeam pela praça da Sé e que nos fizeram companhia na cidade.

A vista da fachada da Sé e um detalhe do sino.
À direita, um detalhe de uma das torres, onde algum pássaro, um pombo talvez, deu de fazer um ninho.

Ainda caminhamos um tempinho pela cidade, querendo ficar, mas querendo ir também, para não perdermos o foco da nossa jornada. Nosso destino era Évora. As distrações no meio do caminho, eram ganhos que guardávamos para inspirar nossa volta. E Portalegre permanecerá nos nossos roteiros futuros, com toda certeza.


sábado, 21 de novembro de 2009

Castelo Branco - 17/10


Não vou arriscar grandes comentários sobre Castelo Branco. Já era noite, quando chegamos à cidade. Não foi difícil encontrar um hotel para nos instalarmos. Ficamos no Rainha D. Amélia, uma construção moderna e confortável. Tomamos um banho e saímos para jantar. A cidade nos pareceu próspera e, de fato, é a mais importante da Beira Baixa. Mas os vestígios da história estão muito dispersos e o que vimos foi a cidade moderna, com prédios altos, obras em vários pontos e nada que atraísse a nossa curiosidade de turistas. Não à noite. Não encontramos nem um restaurante típico, só barzinhos, com música alta, jovens tagarelando por todo canto e um cardápio típico do ambiente. Ou então, lanchonetes, com mesas de fórmica e luz branca. Por fim, achamos um restaurante bem médio, mas que nos serviu iscas de fígado, sopa de legumes e um lombo, não me lembro mais com o quê. Voltamos para o hotel bastantes frustrados.











No dia seguinte, logo depois do café, fomos direto conhecer os Jardins do Paço, ao lado do antigo palácio episcopal. O projeto, de inspiração barroca, é do século XVIII, do bispo João de Mendonça, se estou bem lembrada. É bem interessante e merecia ser visto, mas tenho de admitir, é muito bizarro também. Tem estátua para tudo quanto é gosto: dos signos, de anjos, das virtudes, dos reis, de santos, um samba do crioulo doido. São estátuas de pedra, não sei exatamente qual, acho que é granito, sei que não são de pedra sabão, como as que temos por aqui. O que fiquei sabendo é que, originalmente, eram de bronze e foram pilhadas, durante as invasões francesas, mas essa é outra história. Enfim, foi visto.
O jardim possui três grandes escadarias. De um lado, a Escadaria dos Reis, onde estão representados todos os reis de Portugal, inclusive o primo, D. Duarte. De outro, a escadaria dos Apóstolos e mais à direita, a Escadaria dos Doutores da Igreja. Fizemos poses em todas elas e junto às estátuas das Virtudes Teologais, especialmente, a da Esperança; das Virtudes Cardinais, ao lado da Justiça e da Prudência; dos signos de Zodíaco, Gêmeos e Câncer; das Estações do Ano, a da Primavera, é claro. Não registramos aquelas que representavam as Partes do Mundo e nem dos Novíssimos do Homem - a Morte, o Juízo, o Inferno e o Paraíso. Nem entendi isso e nem outras alegorias que já me esqueci.















Castelo Branco é uma cidade também conhecida por suas colchas de seda bordadas, mas não tivemos tempo para sair procurando por elas. Fiquei apenas com o que já sabia: são colchas de linho bordadas com fio de seda natural, de inspiração oriental, que se tornaram conhecidas a partir de meados do século XVI. Alguns dos elementos desses bordados, conforme vi na wikipédia e não nas vitrines do comércio da cidade, são cenas domésticas e a árvore da vida; os desposados, representados por pássaros juntos, os cravos e rosas, representando o homem e a mulhres e ainda lírios e corações.A manhã já estava se esgotando e o nosso objetivo naquele momento era chegar em Évora a tempo ainda de passear pela cidade. Tudo bem, que em Portugal tudo é perto, mas existe sempre um caminho entre dois pontos para nos seduzir.

Cidade Misteriosa - 16/10


Foi por sugestão mesmo do sr. José, de Sabugal, que incluímos no nosso roteiro a cidade de Sortelha. Cidade é modo de dizer, na verdade, Sortelha é uma aldeia, que foi tombada pelo patrimônio histórico e hoje abriga apenas os mais antigos moradores do vilarejo, uma população de 20 ou 30 pessoas, se muito. No caminho, cortamos estradas bem parecidas com as nossas, estreitas e curvas. Demos sorte, pois foi nessa travessia que conseguimos ver os pastores vigiando seus rebanhos. Vimos de dentro do carro e não conseguimos um acostamento que pudéssemos estacionar para bater um dedo de prosa com os rapazes. Foi pena.

Seguimos o nosso caminho e em alguns trechos nos lembramos de Ouro Preto. Não pelas construções, mas pela paisagem, de morros mais baixos, mas de pedras encrustadas nas encostas, como as que temos por aqui.
















O portal de Sortelha, que se abriu para nós e nos apresentou uma cidade misteriosa e encantadora.
A chegada a Sortelha foi emocionante. Atravessamos um portal de pedras enorme e demos de cara com uma cidade que parece um presepinho, instalada ao pé de um morro, com as ruas costurando as encostas e rodeadas de casas de granito, com janelas e portas pintadas de vinho e todas razoavelmente bem conservadas. Mas desabitadas, como já expliquei. Isso dá à vila um ar de cidade fantasma, que desagradou bastante o meu caçula. "Não vejo graça numa cidade abandonada, sem gente, sem movimento, sem vida" - lamentou ele. Mais tarde ficaria mais conformado, mas sem mudar de opinião.

Estacionamos o carro na praça principal. Assim que descemos, encontramos duas portuguesinhas maravilhosas: dona Encarnação e dona Felismina. Elas estavam sentadinhas, esquentando o sol e trançando cestos de brecejo, uma fibra típica da região. Não resisti e puxei conversa. Como boas portuguesas, reclamaram da vida, das restrições que passam desde que a vila foi tombada e das dificuldades que o país enfrenta desde sempre. Hoje, só podem mesmo trançar cestos. Não podem mais plantar uma horta, cultivar oliveiras, criar pequenos animais, fabricar queijo, nada, nada, e nem empreender novas atividades econômicas.

Falando sobre o dia a dia na pequena vila, dona Felismina me explicou que é tudo muito simples. A cozinha é "conforme". "Comemos carne de frango, de peru, uma verdura ou outra e sopa. É conforme" -, resumiu ela. As duas amigas também me fizeram muitas perguntas. Ficaram maravilhadas com o fato de eu trabalhar fora de casa. "Existe emprego para você no Brasil? Isso é muito bom!" - comentou dona Encarnação, admirada de tudo. Mal sabe ela. No final da conversa, concordamos que éramos irmãs e, por isso, voltaríamos a nos ver, o mais breve possível. Eu acredito nisso.

Em Sortelha, visitamos mais um castelo, este datado do século 13. Só os meninos tiveram coragem de subir na torre, de onde tiveram uma vista deslumbrante da região. Meu caçula curtiu essa aventura. Foi adrenalina pura se equilibrar em pequenos degraus até chegar do outro lado da construção e avistar os morros do entorno. Eu e Cláudio nos contentamos com as migalhas, não menos deslumbrantes, do andar de baixo. Andamos um bom tempo pela cidadela e fomos nos deixando ficar até o sol começar a se por. Só aí retomamos a estrada, para não chegarmos em Castelo Branco muito tarde, pois ainda teríamos de encontrar um lugar para nos hospedarmos.
Vou concordar. Sortelha me pareceu uma cidade triste, mas quem disse que a história é alegria pura e crua? Nada. A história é assim mesmo. Tudo passa e passando deixa para trás lembranças de lutas, de celebrações, de vitórias, de derrotas, de conquistas, de perdas, de começos e de recomeços. E é assim que tentei ver Sortelha. O meu caçula não quis esquentar a cabeça com isso. Eu esquentei só um pouco e concordei rapidamente que minhas amigas são lembranças dessas travessias e o que vimos naquele dia, foi o início de um recomeço. Se isso não é verdade, pelo menos me afastou da tristeza.

A rota dos castelos 16/10

Torre do Castelo de Sabugal

Saímos de Guarda logo depois do almoço. Tínhamos duas opções: seguir em direção à Serra da Estrela ou sair pela esquerda, nos aproximando da fronteira com a Espanha, para fazer o roteiro dos castelos. E essa foi nossa opção. Pegamos uma estrada secundária para conhecer o lado de dentro de Portugal e fomos direto para Sabugal. Nada é longe naquele país e no caminho cruzamos, com certeza, algumas vilazinhas, mas nenhuma tão especial que tenha permanecido na minha lembrança. A paisagem também é mais rústica, parece uma terra de cinzas, com muitas pedras, pouca vegetação e um ou outro alguém que vimos de relance. Quando olhávamos para conferir, já tinham passado.

Sabugal é uma vila do século XVII, contornada pelo Rio Côa. Nunca foi considerada um território importante na política de expansão para sul, mas teve, em alguns momentos da história, o papel estratégico de assegurar a defesa de terras conquistadas. Foi com essa finalidade que, no final dos anos 1200, D. Dinis mandou remodelar o castelo já existente, de quatro torres, dando a ela uma plana pentagonal, reforçando-o com uma quinta torre, chamada torre de menagem. O que nos contaram, nas conversas de rua, é que essa quinta torre foi construída bem acima das quatro originais para que o Castelo de Sabugal se tornasse o mais alto do país. Não sei se procede, mas o fato é que essa torre é mesmo muito alta, dá até vertigem. Cláudio preferiu não correr o risco e ficou nos observando lá de baixo.


O Castelo do Sabugal, que na prática exercia o papel de um forte militar, recebeu benfeitorias ainda durante dois períodos da história de Portugal, mas em 1846, seu interior foi transformado em cemitério e as construções ali existentes foram demolidas.
Durante o século XX, a região, como de resto todo o interior do país, sofreu um esvaziamento radical, provocado pelos movimentos de emigração. Entre os recenseamentos de 1950 e 2001, perdeu cerca de dois terços dos seus habitantes. A região em torno do castelo ainda preserva algumas construções de pedra que nos pareceram originais, mas do alto das torres vemos a cidade nova que surgiu do lado de fora das muralhas, e que nos pareceu bem recente. Uma cidade pequena, de construções baixas, nas quais predominam a cor branca, em forte contraste com o cinza escuro das casas de pedra.

Foi em Sabugal que ficamos conhecendo o sr. José Soares, hoje responsável pela administração do Castelo. Ele nos relatou um bom período da história da cidade e, depois, um pouco da sua própria história. Na década de 80, Portugal sofria os efeitos de uma de tantas outras crises que barravam a retomada do desenvolvimento econômico do país. Muitos jovens, que haviam deixado o interior em busca de novas oportunidades, ficaram desempregados, sendo obrigados a retornar a sua região de origem.

"Cheguei em Sabugal nessa época, junto com alguns amigos. O castelo estava abandonado, tomado pelo mato e entulhos. Decidimos, então, assumir o trabalho de recuperação dessa obra e de reconstituição da sua história. Trabalhamos na limpeza do prédio e na recuperação de documentos históricos. Desde então, nunca mais saí daqui" - contou o sr. José, responsável também pela guarda dos documentos históricos da cidade, administrando o Museu de Sabugal, que, dessa vez, ainda não pudemos visitar. Além dessas atividades, o sr. José é também um colecionador de cartões postais e nos pediu que, assim que chegássemos ao Brasil, enviássemos a ele postais da nossa cidade.

Como prometi, cumpri. Enviei postais de Ouro Preto, Congonhas, Diamantina, São João Del Rei e Mariana, cidades que, evidentemente, têm muitas semelhanças com as cidades portuguesas. Ele ficou muito satisfeito e nos respondeu imediatamente, nos convidando para voltar a Sabugal e, dessa vez, com mais calma, para podermos visitar o museu da cidade. Ficamos devendo mesmo, pois queríamos conhecer ainda mais uma cidade, antes de partirmos para Castelo Branco, onde pensávamos pernoitar. Ficamos devendo também uma estadia de mais dias para descobrirmos a nova Sabugal, de atrativos que não imaginávamos, como as trilhas, os esportes radicais, a caça à perdiz, ao coelho e à lebre, as montarias ao javali, a pesca de trutas no Rio Côa e os mergulhas nas praias fluviais. Ficou mesmo para uma para outra vez.

Quem quiser conhecer mais da história de Sabugal, é só clicar aqui.

sábado, 30 de maio de 2009

Depois da farra, a austeridade - 16/10

O dia estava só começando

Depois da farra da noite anterior, retomamos a compostura. Levantamos cedo, tomamos um bom café da manhã, com pão caseiro, sucos, queijos, quitutes e outras aventuras. Fechamos a conta, a contragosto, e saímos para conhecer Guarda, uma das cidades mais altas de Portugal, a 1.056 metros acima do mar. Nessa época do ano, outubro, a cidade tem uma temperatura agradável e um céu bem azul.

Não perdemos tempo pesquisando o comércio, mas, de plano, desconfio que tem um pouco de tudo o que uma cidade precisa para a sua sobrevivência. Sem ostentação, sem muita variedade, sem muita sofisticação, mas com o suficiente para atender os desejos de um consumidor bem comportado, como, me parece, são os portugueses.

Entrada do Museu da Guarda

A nossa primeira parada foi no Museu da Guarda, instalado no antigo Seminário Episcopal, uma construção de 1600 e qualquer coisa. O prédio, de blocos de granito, é austero como outros que vimos na cidade, de linhas despojadas, frias e límpidas. No seu interior, possui um pátio enfeitado com hortências floridas que poderia ser um bom lugar para meditações, mas não dispõe de nem um banco para sentarmos e ali nos deixarmos ficar. Uma pena.
O pátio interno do Museu da Guarda
O Museu abriga perto de 4 mil e 800 peças de coleções de arqueologia, numismática, esculturas sacras dos séculos XIII a XVIII, pinturas e armarias. Só para terem uma idéia, entre as peças, estão duas espadas da Idade do Bronze, um granito policromado do século XIII, representando Nossa Senhora da Consolação e armarias do século XVII ao século XX, que ajudam a documentar a evolução das armas neste período. Os rapazes ficaram impressionados, especialmente com uma miniatura de canhão, em bronze, apelidada de Josefina, datada de 1773 e, ainda, com uma pistola de palma de mão, com carregador circular em aço, decorada com aplicações em madrepérola. A pistola, do século XIX/XX, tem um cano circular em aço, muito doido, e, na extremidade oposta, o gatilho. Não sei se é muito prática, mas que o inventor dessa geringonça viajou na maionese, não tenho dúvidas.
Eu me impressionei com as pinturas e com uma exposição, não sei se temporária, de fotos, objetos e descrição de costumes da região. Me diverti com os painéis de trava-línguas e anotei um deles para guardar de lembrança e passar para os meus netinhos que, um dia, espero, virão:






Tenho uma capa chilrada, bilrada e gabripatalhada que
a levei à chilradoira, bilradoira e gabripatalhadoira,
para que ma chilrasse, bilrasse e gabripatalhasse,
que eu pagaria a chilradura, bilradura e gabripatalhadura.




Do Museu da Guarda saímos em direção à Catedral da Sé, uma das construções mais impressionantes que vi em Portugal. Mas, antes, fomos obrigados a fazer uma parada. Enquanto subíamos uma das ruas que nos levaria até o alto da cidade, onde fica a Sé, nos deparamos com a Casa do Presunto, com seus embutidos, salsicharias, queijos e outros atrativos. Foi irresistível: compramos um queijo da Serra e meio quilo de uma linguiça defumada super saborosa. Antes do almoço, fizemos uma boquinha com a nossa matula, mas nossa ideia era mesmo trazê-la conosco para dividi-la com os amigos. Até tentamos, só que a alfândega não deixou. São uns cabras bem encrenqueiros e achamos melhor não enfrentá-los. Ainda bem que beliscamos algumas porções durante a viagem.

Por fim, alcançamos a Catedral da Sé, um monumento à austeridade. É uma construção imponente, do século XIV, de aspecto fortificado, gigantesca e belíssima, toda em granito. Mede 52m de comprimento, 16,5m de largura e 20 de altura! Do prédio original, erguido em 1119, não restou nada. Mas o que sobrevive, foi iniciado em 1390. A obra se arrastou por 150 anos e, dizem, só foi concluída durante o reinado de D. Manuel I, graças ao empenho do bispo D. Pedro Gavião, a quem se deve a elevação dos edifícios, a construção das abóbadas, das torres e do pórtico principal. E ainda reclamam das nossas obras inacabadas...Mas aqui é outra história mesmo. Imaginem as dificuldades que enfrentaram para levantar essas paredes, de 20 metros de altura!



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A Catedral da Sé tem 20 metros de altura, é uma imponência!



As gárgulas assustadoras!

Segundo os entendidos, a Catedral da Sé de Guarda é um dos últimos monumentos portugueses dos tempos do gótico, apesar de ostentar evidências também da influência manuelina. Eu, que não sou uma entendida, fiquei muito impressionada com as gárgulas que rodeiam todo o entorno da construção. Parecem demônios nos tentando e nos obrigando a entrar correndo na Catedral em busca de proteção. Coisas da minha imaginação.

As cem imagens esculpidas no altar da Sé

Contrastando com o exterior um tanto pesado da Catedral, o interior encanta pela sua leveza, um efeito provocado não sei se pela sua altura descomunal ou se pela harmonia das abóbadas ou se pelo seu ambiente extremamente clean. Pelo menos essa foi a impressão que me ficou. Lá dentro, me encantou as meias colunas espiraladas e as 100 figuras entalhadas no alto da peça de altar, executadas na oficina de João de Ruão, como dizem os portugueses, ou Jean de Rouen, como diz o guia da Folha de São Paulo. Também observei, como em outras igrejas onde estivemos, as inscrições, talhadas no chão de pedra, de nomes de pessoas que, provavelmente, estão ali enterradas. Enfim, uma visita obrigatória para quem está passando por perto.



Cenas das ruas de Guarda

Ainda rodamos em volta e no entorno da Sé por um bom tempo. Acho que estávamos tomados pelo encantamento dessa construção. Queríamos vê-la de todos os ângulos possíveis. Queríamos mais informações também, mas, infelizmente, não encontramos ninguém para nos ouvir. Com isso, já sabem, chegou a hora do almoço. Cortamos algumas ruas abaixo da Sé e encontramos o Solar da Beira, que nos pareceu muito simpático e com preços bem convidativos. Dessa vez, pedimos um bacalhau ao brás e um lombo assado. De entrada, a sopinha básica de legumes, uma refeição já quase suficiente para a nossa fome.

O bacalhau ao brás estava uma delícia e sua receita não é tão difícil assim para os não iniciados na alta gastronomia. Segundo as orientações da cozinheira, passadas em bom português, é o seguinte: refogue a cebola, o tomate e o bacalhau destroçado numa frigideira com um tanto bom de azeite. Em outra panela, frite a batata, picada em tiras bem fininhas (eu acho que é ralada com aquele corte maior). Depois, misture tudo numa panela só e jogue um ovo por cima. Foi isso que entendi, mas ainda não testei, porque gosto mesmo é de bacalhau a Gomes de Sá.

Terminada a refeição, ainda andamos um pouco pela cidade antes de buscar o carro e pegar de novo a estrada. Foi uma manhã muito proveitosa!