domingo, 30 de novembro de 2008

Histórias de Alfama - 11/10

Demos muita sorte! Por alguns instantes, pensamos em alterar nossos planos e trocar Alfama pelo Estádio da Luz, do glorioso Benfica. Mas como não tinha nenhum jogo programado para o fim de semana, recuperamos a razão rapidamente e tomamos o metro até a estação Terreiro do Paço, que fica na Praça do Comércio, onde pegamos o elétrico 28 para subir até o Castelo de São Jorge. Foi muita sorte, porque, se não fôssemos, perderíamos a vista mais bonita de Lisboa. Mais do que isso, teríamos deixado escapar a oportunidade de conhecer a alma da cidade, que habita ali, em Alfama.

Mas antes de subir, demos mais uma volta na praça e foi quando vi o cartaz abaixo, com ensinamentos nobres sobre a educação de jovens. Gostei muito, mas para não parecer que sou muito radical, fotografei também outra frase, com bandeiras mais liberais, pichada no muro de alguma construção em Alfama. Nada como o equilíbrio! Colecionei outras frases interessantes, mas aos poucos vou mostrando. Registrei ainda o meu sonho de consumo: um Toyota, modelo compacto. Só não pude registrar a minha volta na Coisa. Estavam oferecendo, na Praça do Comércio, um passeio de 15 minutos na Coisa, por uma mixaria de 3 ou 4 euros. Mas não me deixaram pagar esse orangotango. Ainda bem!


Estrategicamente, me puxaram para o lado e me puseram no elétrico que já estava saindo. Saindo e subindo, subindo, porque Alfama é uma ladeira só, toda cortada por ruas estreitas, becos que sobem e descem, fazem curvas e se abrem, de repente, para novos espaços: um terreiro, uma praça, uma passagem ou outro beco. É um labirinto de boas surpresas. Li em algum lugar que esse traçado é influência da cultura mulçumana, que valoriza menos os espaços públicos e as fachadas das construções e mais o interior das casas. E é verdade que os árabes passaram mesmo por lá, só não sei se procede a observação que fazem sobre a cultura muçulmana, mas pelo que vi, tem lógica.





Descemos do elétrico no Miradouro de Santa Luzia e retomamos a nossa jornada até o Castelo de São Jorge a pé mesmo. Do Miradouro já se tem uma vista formidável do bairro e do rio Tejo. Me daria por satisfeita, se não soubesse que o melhor estava por vir. Não sei dizer qual é o nome da igreja que aparece na foto abaixo. Acho que é a de Santo Estêvão, mas não tenho certeza. Agora, o rio que corre lá em baixo, não tenho dúvidas: é o Tejo. O painel azulejado, na outra foto, retrata a Praça do Comércio antes do terremoto. Seguimos. Mais uma vez, me encantei com as fachadas de azulejo e as portinhas dos sobrados. É impressionante, em Alfama e em muitas outras regiões de Portugal, as portas e janelas das casas são muito pequenas mesmos. Para entrar, até eu mesma precisaria me curvar para não bater a testa no marco. Ninguém soube me explicar o porquê disso. Dizer que os portugueses são baixinhos, não justifica. Tem de haver uma explicação melhor. Ainda vou descobrir.









Mas agora vou fazer outra revelação: o Castelo de São Jorge, na verdade, não é um castelo. Ficaram chocados? Pois é, vivendo e aprendendo. O Castelo de São Jorge era, de fato, um forte. Por volta dos séculos X e XI, esteve tomado pelos mouros que dominavam a região. A construção foi ampliada e passou a ocupar uma área de quase 6 mil metros quadrados, rodeada por uma muralha, com dez torres, vigias, fossos e duas praças divididas por um muro e ligadas por um portal. Transformou-se numa fortaleza, abrigando uma verdadeira cidadela, com várias outras construções. Foi em 1147, que Dom Afonso Henrique expulsou os árabes de Portugal e transformou a fortaleza na residência real. A denominação Castelo de São Jorge só foi ser adotada bem mais tarde, a partir de 1371, por determinação do rei João I, em referência ao pacto militar e político assinado entre Portugal e Inglaterra. Vocês não vão acreditar, mas São Jorge, o Santo Guerreiro, que já foi cassado pela Igreja Católica e hoje já nem é mais santo, embora continue sendo venerado por muitos, era adorado nos dois países. Ao dar essa denominação à residência real, João I quis prestar uma homenagem aos devotos de Portugal e da Inglaterra. Esperto, ele.

O Castelo permaneceu como residência real até meados de 1511, quando essa foi transferida para o Terreiro do Paço. Desocupado, passou a abrigar uma prisão e um quartel. Após o terremoto de 1755, a fortaleza ficou em ruínas até 1938, quando Salazar determinou uma reforma geral no prédio, reconstruindo suas muralhas e acrescentando algumas inovações, como jardins e aves exóticas. Mas o melhor do Castelo de São Jorge não foi ninguém que construiu ou reformou. O melhor de tudo que ele tem é a vista que ele nos oferece da cidade. Todos os ângulos são favoráveis e, de lá do alto das torres, Lisboa só pode ficar bem na foto.



Do Castelo, saímos famintos atrás de algum lugar para almoçar, pois já passavam de três horas da tarde ou coisa assim. Demos sorte outra vez e descendo os becos e ruelas, demos de cara com o restaurante A Tasquinha, que fica numa contra esquina de três ou quatro ruas e mais dois becos, bem em frente a uma pracinha, com uma árvore super frondosa e verde. Foi lá que encontramos Liciânia, uma brasileira do Paraná, que nos serviu uma sardinha deliciosa e um jarro de sangria que estava um espanto e geladíssima! Fez tanto sucesso, que nossos eternos adolas nem se lembraram mais do Frize. Aí, claro, pedi a receita e Liciânia prontamente me atendeu: vinho tinto, licor de beirão, canela, açúcar, frutas (maça e laranja) e o pulo do gato: Frize! Mas Liciânia já traduziu para o nosso português: Sprite geladérrimo e menos açúcar! Ainda vou arriscar.

A surpresa do almoço foi a visita dos músicos de Cabo Verde. Sentaram-se num banquinho, no meio da rua, puxaram a viola e animaram a festa. A música é muito alegre e dançante e eles também são, permaneceram com um sorriso farto o espetáculo inteiro. Depois vieram à nossa mesa e renderam conversa. Adoraram saber que vínhamos do Brasil. Falaram do país com muito carinho, nos chamaram de irmãos e ensaiaram um sambinha improvisado. São demais.

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Barriga cheia, pé na areia. E lá fomos nós outra vez. Descer Alfama a pé até a Sé. Já era hora de missa e, claro, entramos. Estava, justamente, na hora da homilia. O padre, parece, falava do Brasil, mas era de Portugal mesmo. Pedia aos homens públicos que tivessem consciência e passassem a governar com mais sobriedade. Não me lembro bem as palavras, mas criticava a corrupção e a falta de espírito público dos governantes. Ai ai, somos todos iguais mesmo.
Daí, já era noitinha e voltamos para o hotel. Tomamos um banho, descansamos e caímos na vida novamente. Fomos atrás de um fado. É claro que deveríamos ter feito reservas, mas estávamos de férias, vivendo das emoções, como íamos pensar nisso? Com a ajuda do gerente do hotel, acabamos conseguindo uma mesa no restaurante A Severa. Não é o melhor do fado português, que está mesmo em Alfama, mas é muito bom também. Fica na rua das Gáveas, no Chiado, o paraíso dos barzinhos. São portinhas minúsculas, para variar, e os clientes bebem em pé, no meio da rua. É um movimento doido, mas não tem arruaça nem ameaças. Atravessamos tudo a pé, sem nenhum risco.

No restaurante, adivinhem? Outro brasileiro veio nos socorrer, o Kleber, um cruzeirense doente. E ninguém vai acreditar, mas o danado morava em Belo Horizonte, no Barreiro, e resolveu tentar a sorte justamente em Portugal. Já está em Lisboa há quase 10 anos. Casou-se com uma equatoriana e agora estão trazendo as famílias para se juntarem a eles. O mundo é um ovo! Depois de muita conversa vai, conversa vem, ele nos mostrou o cardápio e já fez as sugestões: um frango à púlcara e um leitão à bairrada para os rapazes. Os dois pratos, nota 10! O frango lembra muito o nosso molho pardo, mas tem os seus segredos. Kleber me contou que o molho, em vez de sangue, leva vinho do Porto tinto. Aprovei.

Não tenho nenhum registro da noite, porque esqueci a máquina no hotel. Foi uma pena, porque o show, mesmo não sendo mil, emociona. O fado é um canto bonito, às vezes, triste, melancólico, mas, principalmente, é um canto que vem do fundo da alma e é por isso que ele nos toca tanto. Aprendi no A Severa que o fado vem do latim Fatum, que significa predição: a vida preconizada pelo oráculo que nada poderá alterar. Parece até um fardo, não um fado. Mas nem sempre esse canto é triste. Uma das músicas cantadas no espetáculo conta a história de alguém que rompe com a sua sina e, contrariando o fado, inventa um novo destino. Ou seja, no mundo de hoje, tudo é possível.

Como é de costume da terra, antes da meia noite estava tudo encerrado: o show e os trabalhos da cozinha. Assim, pedimos a conta e voltamos para o hotel, que já era hora. Apagamos!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fundação Calouste - 11/10

A manhã do segundo dia começou um pouco mais tarde. Perdemos a hora, como sempre, e só conseguimos por os pés na rua depois das 11. Que vale que não pretendíamos ir muito longe. O nosso roteiro começava com uma visita à Fundação Calouste Gulbenkian. Tinha pesquisado até a programação cultural do dia, para nos entrosarmos radicalmente com a cidade, mas essa nós perdemos. Ficamos só na visita ao Museu e foi melhor assim, pois passeamos sem pressa e sem compromisso pelos 16 salões que abrigam o acervo permanente da Fundação. Degustamos peça por peça e saciamos toda a nossa fome de arte.

Calouste Sarkis Gulbenkian era um grande financeiro, de origem arménia, que morou em Lisboa e faleceu exatamente no ano em que nasci, 1955. Conforme o seu desejo, manifestado em testamento, um ano depois da sua morte foi criada a Fundação com seu nome, com a finalidade, entre outras, de abrigar o Museu, aberto ao público, reunindo a sua coleção, com mais de 7 mil objetos, de moedas gregas clássicas, livros raros, cerâmicas islâmicas até as jóias de René Lalique, além de quadros fantásticos, como o Busto de São José, de Roger Van Der Weyden.

Gostamos de tudo mas, especialmente, do núcleo de arte islâmica, na Galeria 4, reunindo obras de cerâmica, azulejos, tapetes, tecidos, manuscritos, encadernações e vidros. Segundo os entendidos, uma das peças mais importantes desse acervo é um jarro de jade branco, executado para Ulugh Beg, príncipe da dinastia timúrida (1370-1506), conforme inscrição em relevo no gargalo. Mas, na minha ignorância, o que mais apreciei foram os azulejos, os veludos e as cerâmicas pintadas em azul e branco. São de enlouquecer. Os tapetes também são uma viagem. Ficaria dias ali, olhando os detalhes de cada ponto, se não fossem os rapazes me puxarem para os salões do núcleo de artes do extremo-oriente. Foi lá que vimos o conjunto japonês para piquenique, em madeira, revestida a laca preta e vermelha. Uma peça fantástica, pela delicadeza e pela praticidade.

Vejam alguns exemplos de tudo que vimos nas quase três horas de visita ao Museu Calouste Gulbenkian:

Os dois pratos em faiança pintada sob o vidrado são da Turquia, da 2ª metade do século XVI, do Período Otomano. São apenas dois exemplares de uma coleção vastíssima, que ocupava toda uma lateral do prédio. Fiz só uma foto ou outra, porque fiquei com vergonha de ficar clicando tudo que via ao invés de apreciar. Foi uma opção, mas esses dois exemplares já dão um gostinho do que pudemos saborear nesse passeio, não é não?

Os azulejos, também em faiança pintada sob vidro, são outro departamento, muitíssimo especial. São também da Turquia, da 2ª metade do século XVI, do Período Otomano, conforme está identificado nas etiquetas. Esse painel acima, em forma de tímpano, pertence a um conjunto de doze tímpanos idênticos, provenientes da mesquita de Piyale Pasha, em Istambul. Imagina-se que tenham sido retirados e substituídos por pinturas murais, em 1890, depois de um tremor de terra que danificou o prédio. Todos os painéis que vimos são lindíssimos e não saberia fazer uma escolha que não fosse aleatória para representar esse núcleo. Espero que gostem, como gostamos. Os azulejos de Calouste até me inspiraram um novo projeto. Quando me aposentar, vou fazer um curso de pintura em azulejos. Pelo menos vou tentar. Se conseguir aprender alguma coisa, vou arriscar algumas peças ao estilo turco otomano, século XVI. Se não, pelo menos terei me divertido.


As duas peças acima também fazem parte do acervo Calouste. A natureza morta é de Claude Monet, um óleo sobre tela de 1872. A cerâmica pintada em azul e branco ajuda a compôr a mesa retratada por Monet, mas o que achei mais curioso nesse quadro foi a melancia partida. Depois, li num folheto, que essa obra de Monet se sobressai pelo arrojado exercício de cor. A foto de baixo é de um relógio de bronze, adquirido por Calouste em Paris. A peça é de 1760/1770 e suas engrenagens estão perfeitas, marcam as horas pontualmente.
Vimos muitas outras peças deslumbrantes, como o quadro Figura de Velho, de Rembrandt (1645). As cores, a luz, os detalhes extremamente expressivos das mãos e do rosto da personagem dão grande densidade a esse quadro. Não quis fotografá-lo, preferi só olhar para não perder o encanto. Quem estiver indo a Portugal, vale a pena dedicar uma manhã inteira, mais longa que a nossa, só ao Museu Calouste Gulbenkian e quem não estiver indo, mas tiver a mesma curiosidade, vale a pena também fazer uma visita virtual ao Museu, clicando aqui . Eu vou, quando começar a esquecer tudo que vi e não fotografei.
Depois de nos fartarmos de artes tão delicadas, caimos na vida novamente. Mas esse capítulo fica para outro dia.

domingo, 16 de novembro de 2008

Personagens urbanas


Quatro dias é muito pouco tempo para conhecer uma cidade. Quando muito, dá para se ter uma idéia e já está de bom tamanho. Os museus, os monumentos, os pontos turísticos nos ajudam bastante a entender a cultura de uma região, mas não são suficientes. Às vezes, os personagens que encontramos na rua são mais expressivos que 100 folhas de documentos. Mas, para conhecer todos eles, seria necessário também mais do que quatro dias. Alguns, no entanto, são bem evidentes.

Os vendedores de castanhas, por exemplo. Em Lisboa, são como os nossos pipoqueiros. Estão em todas as praças e por toda parte. Não sei bem o que isso significa, mas está claro que esse fruto é bem mais popular em Portugal do que o nosso milho. Apesar de não ter identificado nem um souto de castanheiro pelas estradas por onde passamos, devemos ter cruzado com alguma dessas plantações, pois a castanha tem uma grande importância econômica para o país e ocupa o 2º lugar entre os produtos agrícolas exportados. Não que o milho não seja importante por aquelas plagas. Mesmo com a produção em declínio, existem por lá mais de 100 mil produtores de milho, a maior parte acima do Rio Mondego. Mas o milho é mais usado como ração e não para fazer pipocas. No Brasil também é assim, a maior parte da produção é para consumo animal, portanto, esse argumento não explica nada. Por isso, acho que, no final das contas, tudo é uma questão de gosto.

Nos dias que passamos em Lisboa e nos outros que andamos pelo interior, quase não vimos crianças. Sei que não são tão populares como são por aqui. Representam menos de 20% dos pouco mais de 10 milhões de portugueses e nem ficam andando pela rua sozinhas, como ficam por aqui. Isso faz a diferença e explica porque é tão difícil mesmo encontrá-las. Ainda assim, acabamos topando com uma, no metrô, quando íamos para o Parque das Nações. Não estava ameaçando ninguém, nem pulando de um lado para o outro, nem rindo, nem brincando. Estava lá, tocando o seu acordeon e recolhendo o merecido cachê, com a ajuda de um cãozinho danado de feio, mas simpático. A criança me pareceu melancólica, mas acho que estava fazendo um tipo. É outro personagem da cidade.

Mas ninguém pode imaginar quem mais encontramos pelas ruas de Lisboa. É inacreditável e ao mesmo tempo absolutamente previsível. Exatamente, exatamente. Estávamos em Belém, ao lado do Monumento dos Descobrimentos e quando olhamos para o lado, adivinhem? Isso mesmo, mais uma das equipes da multinacional de música regional boliviana. É impressionante como são eficientes, estão em toda parte e, coincidentemente, sempre em grandes momentos. Lá estavam eles.




Encontramos outros, como os bolivianos, porém, mais inusitados e menos seriados. Os músicos de Cabo Verde, por exemplo, que vieram animar o nosso almoço em Alfama, e uma turma que não identifiquei bem, mas que parecia ser de peles vermelhas, vinda diretamente das Américas. E outros personagens, como o policial fazendo a ronda usando a Coisa, a cabeça de um bacalhau e o ambulante que vende livros usados. E muitos outros, que não fotografamos, mas que aos poucos irei me lembrando.




sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Os cafés de Lisboa - 10/10

Depois de nos fartarmos de orelhas e sumários na Bertrand, retomamos nossa caminhada Garret acima, em direção ao Largo do Chiado. Estava sempre três passos atrás dos rapazes e por duas vezes quase caí, pois andava olhando para o alto, apreciando as fachadas de azulejo dos sobrados que se multiplicam pela cidade. Os da Rua Garret são sobreviventes do grande incêndio que, em agosto de 1988, destruiu boa parte dos prédios do Chiado, especialmente os das ruas Nova do Almada, do Carmo e da própria Garret. Não sei muito sobre esse incêndio, só que as chamas deram conta do recado em poucas horas. Os lisboetas ficaram desolados, mas os trabalhos de reconstrução conseguiram salvar pelo menos algumas fachadas originais e a alma da região, que continua muito charmosa e sendo referência histórica e cultural da cidade.

Entre outras atrações, é lá que fica o Café A Brasileira. Óbvio que nosso plano era mesmo o de arrematar o almoço ali, experimentando um pastel de Belém com sotaque e um cafezinho feito na hora. E não gastamos muitos passos da Bertrant até o alto da rua. O Café A Brasileira é uma referência importante para nós por várias razões. A primeira, claro, é porque um de seus freqüentadores mais assíduos era o poeta Fernando Pessoa, que releio sempre que posso, embora nunca tenha conseguido decorar nem um de seus poemas. Mas isso não é nenhum demérito, porque não sei mesmo de cor nem um poema, de poeta algum. Só leio e releio quando preciso, com a vantagem de ter sempre aquela sensação gostosa de ser a primeira vez. E entre as mesinhas que ficam na rua, lá está ela, uma estátua em bronze do poeta, sentado, sempre no meio de uma prosa. A obra é de autoria do mestre Lagoa Henriques. Paguei o mico. Sentei-me com ele por alguns instantes, para trocar algumas idéias. Nem acreditei que tive essa coragem.
Outra razão da nossa curiosidade pelo café é a sua relação com o Brasil. Como o próprio nome sugere, era ali que os portugueses tinham oportunidade de saborear o autentico e verdadeiro café brasileiro. No começo, nem fazia tanto sucesso assim, mas Adriano Telles, seu fundador, tinha tino para o negócio. Investia na modernização do espaço e fazia promoções para atrair o público. No dia da inauguração da nova casa, em 19 de novembro de 1905, quem comprasse um pacote de café moído para levar para casa, bebia uma chávena de graça. Espertinho ele, não é? Além do café, Adriano importava do Brasil goiabada, tapioca, pimentinha e outros temperos mais. Tudo era mais fácil para ele, pois morara um bom tempo no Brasil, antes de voltar a Portugal para os novos empreendimentos. Em pouco tempo, o Café A Brasileira tornou-se um point para intelectuais, poetas e artistas da cidade. Era um homem de negócios, mas também um homem sensível que admirava e valorizava as artes, ajudando a divulgar o trabalho de vários pintores da época, expondo-os no seu café.

Enfim, estávamos lá, rodeados por alemães e franceses. Não me pareceram ser poetas, mas eram bem faladores, por isso ficamos bem a vontade também. Abusamos do nosso sotaque mineiro, enquanto avaliávamos a qualidade do nosso pedido. No final, sobrou um pastelzinho no prato, mas ninguém se aventurava mais. Aí decidimos dividi-lo irmãmente e pedimos uma faca. Não sei se a menina que nos atendia não entendeu o nosso pedido ou se entendeu. O fato é que em vez da faca, ela trouxe a conta. Rimos muito e tivemos de explicar a ela que, no Brasil, quando chega a conta, às vezes comentamos: lá vem a facada. Ela também achou graça na confusão que fez, não sei se por educação, mas afinal trouxe a faca e ainda se ofereceu para fazer a nossa foto no café. Uma gracinha.
Do café, saímos novamente para bater perna. Fomos para a Praça Luís de Camões, onde fica a Embaixada do Brasil, conferir se ela é de fato tão bonita quanto dizem. Lembramos de Zé Aparecido. Se não estou enganada, fomos nós que pagamos a recuperação desse prédio, também destruído no incêndio de 88. Antes paramos na esquina da Garret com a Rua da Misericórdia, para conhecer a Igreja do Loreto ou Igreja dos Italianos. Nossa adola, que é fã do Poderoso Chefão, não perdeu a oportunidade para inventar algumas histórias da máfia em Portugal. Santo Deus!

Rendas e bezouros













E continuamos a andar. Depois de subir a Garret, nosso roteiro foi descer a Garret, em direção à rua da Conceição, o paraíso dos aviamentos. Mas, antes disso, contamos mais de meia dúzia de Smarts cruzando as ruas. Os Smarts são a grande atração automobilística de Lisboa, estão por toda parte. São bezourinhos menores que o nosso velho fusca. Cabem em qualquer lugar, mesmo onde não tem vaga alguma, eles conseguem estacionar. É impressionante! E ainda entramos em mais uma livraria, atrás da Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, que queria trazer para presentear meu pai. O Atelier de Relume - Librairie de A Ferrin também tem uma história. Está ali no Chiado desde o início dos anos 1900 e tem um bom estoque de brochuras de clássicos da literatura. Mas não tem livreiro ou, pelo menos, não na hora em que passamos por lá. A caixa de plantão não soube me dizer se teria ou não o livro que procurava e pediu-nos para esperar um dos vendedores. Não esperamos.
Seguimos o nosso caminho, passando em frente ao Mercado do Chiado e descendo a Nova Almada até a Rua da Conceição. Já no primeiro quarteirão dei de cara com a Adriano Coelho - Retroseiros. Deixei os rapazes na rua, se divertindo com a frota de carros portugueses, e entrei para procurar os barrados bordados, encomenda de minha irmã, e uma chita portuguesa, que queria trazer para fazer um vestido de verão. Não encontrei a chita em lugar nenhum, mas me perdi num mundo de barrados, linhas de diversas cores, fitas, rendas e outros bordados mais. Minha irmã tem toda razão. Os barrados portugueses, ou seja lá que outro nome isso tem, são muito delicados e têm um acabamento que beira a perfeição. Eram tão bonitos que tive vontade de trazer para mim também. Mas deixei pra lá, pois não saberia dar nenhuma destinação a eles. Minha irmã vai usá-los no acabamento dos bordados que anda fazendo. Vai fazer um bom uso.

Agora, olhem se esse nosso mundo não é um ovo! Estava super indecisa na loja. Eram tantas opções que fiquei perdida. O rapaz que me atendia tentava me socorrer, mas não ajudava muito. A minha dúvida era maior, porque queria escolher as tiras bordadas como se fosse a minha irmã. Impossível. Mas ficamos conversando e acabei descobrindo que o dono dessa loja, atualmente, está no Brasil, morando em Maceió. Montou uma barraca de água de coco e lagosta, para atender a clientela portuguesa que vem fazer turismo nas nossas praias. Dá para acreditar? Bem que ele poderia montar uma filial da Adriano Coelho por aqui. Seria uma boa idéia, não é?


A Rua da Conceição tem muitas outras lojas de aviamento, mas a minha cota de consumidora já estava vencida. Quem estiver passando por ali e também tiver interesse em fitas bordadas, deve andar até a esquina da Rua da Prata, onde vi um retroseiro muito chique e com um estoque mais variado ainda do que o da Adriano Coelho. Deve ser de enlouquecer. Nem me atrevi a olhar a vitrine, mesmo porque, quando me dei conta, os rapazes já estavam longe, descendo a Rua da Prata em direção à Praça do Comércio, nosso próximo alvo. A praça abrigou o palácio real durante 400 anos e foi palco de importantes momentos históricos do país, entre eles, do primeiro levante do Movimento das Forças Armadas, na Revolução dos Cravos, em 1974. Na década de 1910, os prédios que abrigavam a família real foram transformados em gabinetes administrativos do governo e pintados com a cor rosa da República, segundo o Guia da FSP. Hoje, estão pintados de amarelo real e acho que continuam abrigando repartições públicas.
Café com Frize





A Praça do Comércio também tem um apelido. Entre os portugueses, é conhecida como Terreiro do Paço. É uma área aberta enorme e, por isso mesmo, belíssima. Mas como em todo lugar do mundo, sempre tem um espírito de porco que não suporta ver um espaço vazio sem querer logo preenchê-lo com alguma coisa. No caso, transformar a praça num grande estacionamento. É inacreditável. Ainda bem que a proposta não vingou. Enquanto isso, podemos apreciar, sem trombar em nenhum carro ou qualquer outro obstáculo, o enorme arco ao lado norte da praça, que dá passagem para a rua Augusta, e a estátua do Rei José I, ali instalada em 1775, além dos lustres dos corredores térreos, que são lindíssimos.



Ainda segundo o Guia da FSP, a estátua é uma obra de Machado de Castro, o mais importante escultor português do século XVIII. José I está montado num enorme cavalo de bronze, que pisa em serpentes. Originalmente, era um cavalo negro e inspirou outro apelido para a praça: Praça do Cavalo Negro, adotado por viajantes e mercadores ingleses. Hoje, com o tempo, a estátua foi coberta por um tom esverdeado que a deixou mais bonita ainda. E mais do que o cavalo, o que me fascinou foi um elefante, postado bem ao lado dele. Um inusitado elefante! O que será que passava na cabeça de Machado de Castro enquanto moldava esse elefante? Acho que ele era um viajandão.

Ainda na praça, paramos em mais um café para saciar a nossa sede insaciável de tudo. Dessa vez, foi no Café Restaurante Martinho da Arcada. Esse é realmente antigo. Foi fundado em 1782! Mais de 300 anos de história e não está prosa. De volta ao Brasil, relendo Pessoa, vi duas fotos do poeta no Café Martinho da Arcada e nem umazinha dele no A Brasileira. E, de fato, foi lá que Pessoa escreveu muitos dos seus poemas, entre eles, os que fazem parte do seu único livro publicado em vida: Mensagem. Foi lá que meus rapazes descobriram o Frize, um refri de limão, levemente salgado. Gelado, é uma delícia mesmo. De lá, fomos para a Escadinha do Espírito Santo da Pedreira tomar o metro e voltar para o hotel.

Pensam que acabou o dia. Nada! Descansamos um pouco e voltamos para o Rossio. O plano agora era jantar no Solar do Presunto, que fica na Rua Portas de S.Antão, paralela à Avenida Liberdade, na altura da Praça dos Restauradores. Super indicado, mas acho que não só para nós, pois estava lotadérrimo também, com fila de espera na porta. Desistimos, porque o sono estava chegando. Descemos até a Praça da Figueira, que fica ao lado do Rossio, e resolvemos o nosso jantar com os famosos bifanas, um sanduíche na chapa, de pão francês com carne de porco. O velho e bom sanduba com coca-cola! Voltamos para o hotel satisfeitos e dormimos o sono dos justos. Foi assim o primeiro dia.